5 de fevereiro de 2019|

Venezuela: de conflito doméstico a disputa global

“A Venezuela vive um processo de golpe de Estado, comandado a partir de fora. O interesse central das potências – vamos repetir! – é o petróleo. O desfecho dessa tensão pode acontecer nas próximas semanas. Se o Brasil cometer a loucura de entrar em uma briga que não é sua e seguir colocando lenha na fogueira, dias terríveis nos aguardam.”

por Gilberto Maringoni (*)

1. 
A PRINCIPAL DISPUTA em curso no sistema internacional hoje é travada na Venezuela. O país de 32 milhões de habitantes que atravessa pesada crise econômica há pelo menos cinco anos e assiste uma conflagração doméstica se internacionalizar de forma acelerada. Pelos quatro cantos do mundo se palpita sobre a falta de produtos nos supermercados, as manobras do governo Maduro – chamado de “ditador” pela mídia global -, se comenta a respeito das legiões de pobres que saem do país e se diz que Juan Guaiadó, presidente da Assembleia Nacional (Congresso) é mesmo o líder talhado para assumir o poder. É jovem, tem uma família maravilhosa e só quer libertar o povo venezuelano.

É preciso examinar com mais atenção e não comprar a narrativa fácil vendida pelos telejornais e grandes portais. E, acima de tudo, não ser maniqueísta e achar que existe um lado do bem e outro do mal nesse jogo.

2.
A VENEZUELA VIVE UM ACIRRAMENTO de conflitos internos com repercussões externas por um motivo estrito e principal: é dona das maiores reservas planetárias de petróleo, algo em torno de 300 bilhões de barris. Em seus melhores dias, a indústria petroleira do país extraia cerca de 3 milhões de barris por dia (hoje é um terço disso). Ou seja, se estiver com seus poços a todo vapor, há óleo suficiente para abastecer o mercado ao longo de 274 anos, mantidas as condições atuais.

Essa é a causa maior dos conflitos. Os Estados Unidos não defendem a “democracia” e a “vida do povo” em países que não possuam petróleo ou outros bens estratégicos para sua economia.

3.
É POR ISSO QUE SE MONTA UMA LONGA NARRATIVA de crise humanitária, de opressão, de repressão e de falta de democracia. A Arábia Saudita, por exemplo, sequer chega a ser um país. É uma vasta propriedade, dirigida a ferro e sangue pela família Saud. O Egito vive sob uma ditadura militar. Situação semelhante é observada na Líbia, no Tibet, no Iêmen e em vários outros. Por que Donald Trump não aciona seus aliados, como Jair Bolsonaro, para deflagrar um cerco econômico nessas regiões, como o que estrangula a economia venezuelana? Por que não utiliza sua influência na União Européia para isolar esses governos?

Por um motivo simples: essas são ditaduras amigas.

4.
AFINAL, A VENEZUELA é uma ditadura ou uma democracia? E quais as causas de sua crise econômica?

As causas da crise estão centradas na grande fonte de riquezas locais. Combustível da economia mundial e mercadoria de mil e uma utilidades, o petróleo garante prosperidade em tempos de preços elevados no mercado mundial e é sua desgraça quando as cotações desabam, como aconteceu entre 2014-16. Nesse período, a economia local foi literalmente ao fundo do poço.

Sem outros produtos de exportação, o chamado “ouro negro” responde por 97% de suas entradas no comércio externo. A própria exuberância em épocas de preços altos inibe a instalação de indústrias e outras iniciativas produtivas.

5.
QUEDA DE PREÇOS NÃO É BRINCADEIRA. Em julho de 2007, o barril alcançou sua maior marca histórica: 148 dólares. Sete anos depois, por uma série de motivos, os preços desabaram para 28 dólares o barril. A Venezuela quebrou, a Rússia entrou em recessão e todos os países dependentes do petróleo conheceram fortes turbulências.

Some-se a isso, a total inabilidade e voluntarismo de Nicolás Maduro para lidar com adversidades, construir alianças e conduzir a economia sem jogos de cena. Tentando se manter no poder, buscou isolar a extrema direita interna pró-Estados Unidos com uma assembleia constituinte que, um ano e meio depois de instalada, não gerou nova Constituição. E fracassou na tentativa de reestabelecer o crescimento econômico. O Produto Interno Bruto desabou, como se o país enfrentasse uma guerra.

6.
É POUCO PROVÁVEL QUE A OPOSIÇÃO resolva o problema. A Venezuela teve, entre 1999-2010, um padrão de vida em constante elevação para a população pobre, com programas sociais eficazes. A manutenção da exclusividade da economia petroleira em tempos de preços em queda pegou Caracas no contrapé, como aconteceu outras vezes no século XX.

Hoje, o conflito interno pode se tornar um enfrentamento entre Estados Unidos, China e Rússia, como acontece na Síria, com consequências devastadoras para a população. O apoio de Pequim não é gratuito. O país comprou um estoque de petróleo que deve ser entregue pelos próximos 35 anos. Pagou adiantado por um produto que ainda se encontra no subsolo. O receio chinês é que um governo pró-Washington rompa o acordo e estabeleça um prejuízo de dezenas de bilhões de dólares. E a Rússia tem na Venezuela um mercado certo para sua competente indústria de armamentos.

7.
JUÁN GUAIADÓ ERA UM COMPLETO DESCONHECIDO da maioria da população até novembro passado. Assumiu a presidência da Assembleia Nacional e foi projetado internacionalmente como a grande esperança do país, apesar de não ter liderança sobre quase nada. Ao mesmo tempo, o isolamento de Maduro é crescente.

A Venezuela vive um processo de golpe de Estado, comandado a partir de fora. O interesse central das potências – vamos repetir! – é o petróleo.

O desfecho dessa tensão pode acontecer nas próximas semanas. Se o Brasil cometer a loucura de entrar em uma briga que não é sua e seguir colocando lenha na fogueira, dias terríveis nos aguardam. A única saída é que seja montada uma rodada de negociações entre governo e oposição. Guaiadó e Trump já avisaram que não aceitam. A escalada bélica precisa urgentemente ser detida.

 

(*) Gilberto Maringoni é Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC

Uma resposta para “Venezuela: de conflito doméstico a disputa global”

  1. Vinicius disse:

    Pensar que quem escreveu isso é professor… Retrata, de forma perfeita, toda a derrocata do ensino no nosso querido país. Novos ventos já estão soprando, mas ao que tudo indica, uma leve brisa não bastará para nosso Brasil, precisamos de um tornado.

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