26 de novembro de 2018| , ,

Perseguição aos professores é nostalgia da ditadura

A sensação de legitimidade do ódio logo após as eleições de líderes políticos da extrema direita não se trata de percepção paranoide ou pânico da oposição: tem correlação matemática.

por Marcos Sokabe *

Estatísticas reveladas pelo FBI, por exemplo, apontaram um aumento de 17% de manifestações de ódio, motivados por preconceitos étnicos, religiosos e de gênero, de 2016 em relação a 2015, nos Estados Unidos. Curva aguda para que seja possível ignorar o elemento Trump. Um outro levantamento feito pelo pesquisador Brian Levin, do Centro de Estudos sobre Ódio e Extremismo, na Califórnia, analisa o número de manifestações do tipo após as falas públicas dos presidentes norte-americanos – e se a cifra caiu de forma substancial durante a Era Obama (entre 2012 – 2014 principalmente), a partir de 2015, com o simples anúncio da candidatura de Trump, registrou-se uma nova tendência: os crimes de ódio contra muçulmanos, como ataques a mesquitas, aumentaram 67%.

O patriotismo xenofóbico e o endurecimento das tratativas com estrangeiros foram promessas de campanha de Trump. Ademais, o entendimento sobre “manifestações” ou “incidentes” de ódio nos Estados Unidos é dúbio, pelas autoridades e pelo norte-americano médio, de maneira que o número de casos, possivelmente, seja maior do que o divulgado.

Porém, este tipo de correlação – de como a influência discursiva de um presidenciável interfere no aumento de manifestações intolerantes, por hora e por minha parte – é apenas hipotética, já que necessitaria de um modelo matemático para sua sustentação. Construo a ideia apenas no sentido de pensarmos o quanto a fala de um líder popular, mesmo que ela esteja baseada em discursos anteriores a ele, é capaz de legitimar atitude de ódio.

Uma parte significativa da base eleitoral desses candidatos é composta por disseminadores de ódio como ideologia, ética e maneira de ser, como fundamento de identidade do grupo de apoiadores conscientes de projetos autoritários. Se, por aqui, o fenômeno populista de Bolsonaro pode ser entendido à luz da descrença sobre o sistema político brasileiro, por outro lado não exclui que há um discurso concreto, uma agenda de pensamentos ultraconservadores bem estabelecida no imaginário popular, ao menos em parte dele.

Um dos principais motes do parlapatório bolsonarista durante a campanha presidenciável foi a acusação alegórica de que os professores venham promovendo uma “doutrinação ideológica” nas escolas brasileiras. Não demorou para que professores começassem a sofrer perseguições. As tentativas de censura, perseguição e cerceamento à livre atividade docente crescem no país, vide o caso da deputada Campagnolo, a tramitação do Escola sem Partido e as demissões e represálias contra professores, impedidos de exercer o direito constitucional da liberdade de cátedra.

Imaginar que a classe de professores, atualmente estimada em mais de 2,5 milhões no Brasil, é tão uníssona ideologicamente a ponto de fazer de tal suposta ideologia operativa, se aproxima dos conspiracionismos. Um dos princípios basilares da pesquisa é o de que quanto maior a amostragem, maior é a taxa de variação.

É interessante que seja feito o questionamento do porquê de Bolsonaro escolher professores como inimigos da sociedade. Caso o propósito fosse realmente explorar novas perspectivas educacionais, teorias, escolas filosóficas e pensamentos, o Escola Sem Partido não seria baseado na censura e na intimidação, mas no enxerto ao diálogo e logo seu cultivo; a relação entre tese e antítese. A onda antipedagógica que o governo Bolsonaro incita, a desconfiança entre o aluno, os pais e os professores, cabe a interpretação de uma tentativa de transformar as escolas em terra arrasada e improdutiva no que concerne o espírito crítico e a autonomia cidadã, aonde nada floresça, a não ser a praga da intolerância. Esse apoio ao texto do Escola sem Partido pode ser uma maneira de desviar o foco de um governo que não pretende descongelar o orçamento na área da Educação, medida de Temer; ou que, diante da resistência quanto aos projetos de austeridade fiscal e corte nos direitos do trabalhador, a esfera pública seja inundada por pautas com grande adesão devido ao sensacionalismo, de fácil trago.

O apelo persecutório aos professores lembra o modus operandi do nosso período de ditadura militar: o discurso criminalizando Paulo Freire – que soa ridículo e antiacadêmico a qualquer um com um pouco de conhecimento além da elementaridade –  é conspiratório, sem argumentação; as falas de aniquilação aos “vermelhos”, filhotes retóricos da forte e sensacionalista propaganda anticomunista da época. É preocupante que essas falas alucinógenas de Bolsonaro, tão atrasadas e inconsonantes com o conhecimento contemporâneo da academia, façam tanto sucesso com o povo brasileiro.

Historicamente, nos regimes autoritários, como na ditadura militar brasileira, após a opressão direta – toque de recolher, revista e violência policial, etc. – a dinâmica do controle se dá através de sucessivos ataques ao campo da educação, que vão de substituição de disciplinas marcadas pelo desenvolvimento do senso crítico no aluno, como filosofia e sociologia, até um projeto de mecanização do ensino, a fim de formar indivíduos voltados ao mercado, conhecimento técnico e somente, incapazes de traçar correlações entre a realidade, a História, e a luta de classes. Foi assim na ditadura, período que Bolsonaro lembra com nostalgia.

Os professores, bem sabemos, são a ponte para a individualização, ao mesmo tempo que os nossos guias para a entrada no mundo. Fornecem-nos o conhecimento, mas sua didática ensina sobre o prazer da descoberta; é sobre o que fica, todavia, principalmente sobre o que move. Apenas num projeto político conservador e autoritário que a intolerância tramita sem resistência, apenas quando falta capacidade social e massiva de questionar.

 

(*) Marcos Sokabe é jornalista.

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