Federação dos Professores do Estado de São Paulo, 19 de abril de 2024

20 de março de 2023

O ChatGPT só é monstro se não houver um professor por perto

Virar as costas para a nova tecnologia é se render a um ensino que despreza a evolução em sala de aula

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Por Lidiane Christovam e Iberê Moreno

 

O uso da Inteligência Artificial (IA) sempre foi tema da ficção científica, seja em versões robóticas materializadas como vemos na saga Star Wars ou mesmo nas consciências sem corpo como no caso do filme Her. Tudo sempre pareceu algo muito distante, seja no espaço ou no tempo.

A questão é que agora, em 2023, já vemos os primeiros sinais dessa evolução. O problema é que ainda não sabemos lidar. Chegou a hora de retomarmos os debates da ficção para pensarmos a realidade.

 

“Tudo é muito novo, a novidade causa estranhamento… e existem as questões éticas relacionadas a plágio e referências”.

É preciso entender e acolher essa novidade, ao invés de virar as costas para o que as redes e as novas tecnologias podem oferecer ao processo de ensino – como, infelizmente, faz o governo de São Paulo ao impedir o uso de redes sociais em sala de aula.

Essas tecnologias não substituem a importância dos professores no processo de ensino. Embora essas inovações possam fornecer informações e feedback, a experiência docente é fundamental para ajudar os alunos a compreenderem e aplicarem o conhecimento.

As IAs podem ser uma ferramenta valiosa para apoiar o ensino, ensinando seus alunos a aprender a perguntar, mas não podem substituir o papel crítico dos professores na educação.

Esse tipo de ferramenta tem um impacto significativo no ensino, principalmente por sua capacidade de gerar respostas relevantes e personalizadas em uma ampla variedade de tópicos. Como um modelo de linguagem natural treinado em grandes conjuntos de dados, o serviço pode fornecer informações precisas e confiáveis, o que pode ser muito útil para professores e estudantes em seu processo de aprendizagem. Além disso, o sistema de Inteligência Artificial pode fornecer respostas imediatas e personalizadas a perguntas específicas, permitindo que os alunos aprendam no seu próprio ritmo.

O que devemos ficar atentos são as questões éticas e autorais. Diferente de uma busca  do navegador, onde recolhemos uma série de endereços e links, aonde podemos referenciar aquele conhecimento, no ChatGPT não há esse endereçamento. Além disso, existem as questões éticas relacionadas a plágio e referências, assim como o viés dessa construção textual.

Tudo é muito novo e assim como outras tecnologias que surgiram ao longo do tempo, o primeiro momento de uma inovação causa estranhamento. Basta lembrarmos das calculadoras programáveis quando surgiram, e que com o passar do tempo alguns professores foram se adaptando e acrescentando o seu uso na sala de aula, assim como outros até hoje não aceitam o seu uso nos cursos de cálculo.

Apesar dessa visão generosa que apresentamos aqui da ferramenta, sem dúvida ela pode ser, na verdade, uma catástrofe. Já ocorreram casos de provas feitas com essa tecnologia e que tiveram uma avaliação positiva, e por causa disso diversas instituições já proibiram seu uso. Alunos aprovados apenas digitando a pergunta no ChatGPT, ou trabalhos inteiros feitos com essa ferramenta assustaram e tem preocupado todos e todas as docentes.

Porém em outras situações que IAs nesse modelo foi utilizado foi possível identificar uma disparidade com a capacidade humana. Foi a situação do equivalente estadunidense do Exame da Ordem dos Advogados, no qual a IA foi aprovada, porém no limite da média e sem apresentar reflexões subjetivas ou análises que fossem capazes de entender a realidade com a complexidade humana necessária. A única certeza que temos é que as incertezas são muitas e que permeará a sala de aula, se teremos mudanças e como elas vão acontecer ainda são perguntas abertas.

Lidiane Christovan  – Professora universitária e diretora do Sindicato dos Professores de São Paulo

Iberê Moreno – Doutor em História e diretor do Sindicato dos Professores de São Paulo

Artigo publicado originalmente em Carta Capital, aqui

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