16 de dezembro de 2019

Ensino privado no Brasil: um completo caos

No Brasil, quando se trata de educação, de modo geral o dinheiro só compra mais trabalho para os membros da família.

por Jorge Alexandre Neves

 

Como ocorre quase sempre, a liberação de novos dados do Pisa leva a um importante, porém muito mal informado, debate sobre a baixa qualidade da educação pública, no Brasil. Algo que tende a ser bem menos ressaltado, contudo, é a baixíssima qualidade média da educação privada.

A verdade é que a educação privada no Brasil é um desastre!

Neves: ‘valores exorbitantes para receber pouco em troca’.

Nosso sistema particular de ensino oferece uma péssima relação custo-benefício. As famílias pagam valores exorbitantes – inclusive quando se leva em consideração comparações internacionais, em particular com países com nível de desenvolvimento socioeconômico semelhante – para receber pouco ou nada em troca.

Muitas vezes, essas famílias confundem qualidade do ensino com nível de exigência. Ora, um dos indicadores do desastre da educação privada, no Brasil, é justamente este. Estudantes de escolas particulares ficam, de modo geral, apenas um expediente na escola e levam uma enorme quantidade de deveres para serem feitos em casa.

Essas escolas, assim, empurram boa parte do problema do aprendizado acadêmico para as famílias, que, por sua vez, têm que se desdobrar e fazer enormes investimentos adicionais de todas as formas de capital a elas disponíveis: humano (o conhecimento acadêmico redundante da formação educacional prévia dos membros mais velhos da família), social (tempo de dedicação desses membros mais velhos à criança ou ao adolescente que traz as atividades acadêmicas para casa), cultural (a bagagem de cultura não escolar desses mesmos membros) e financeiro (gastos adicionais com aulas particulares, por exemplo). Ao mesmo tempo, na sua esmagadora maioria, essas escolas não oferecem, por exemplo, laboratórios de ciências para aulas práticas. Como se pode gostar de ciência e aprender ciência sem experimentação? Talvez valha a pena essas famílias se perguntarem: afinal, estamos pagando uma fortuna em troca de que?

Essa descrição da realidade escolar dos alunos do ensino privado nos ajuda a entender porque, no Brasil, a diferença de desempenho entre alunos de escolas públicas e privadas se deve, fundamentalmente, à diferença no nível socioeconômico das famílias, como mostrei em outra coluna (aqui), a partir de um estudo de José Francisco Soares e Renato Judice de Andrade (aqui).

Os resultados do PISA-2018, que foram divulgados no início de dezembro, mostram como os filhos da nossa elite têm, em termos relativos (ou seja, quando comparados com os adolescentes dos demais países estudados, e que também estão no topo da estratificação social em seus países), um desempenho educacional ainda pior do que os filhos das famílias pobres.

Esses resultados do Pisa mostram, também, que a posição relativa do Brasil cai quando se compara apenas aqueles adolescentes do topo da distribuição socioeconômica. Ou seja, em termos relativos, se a educação da grande maioria da população, que frequenta a escola pública, vai mal, a da elite está ainda pior.

Em outros países, o dinheiro consegue comprar uma educação escolar muito melhor. No Brasil, a vantagem educacional dos filhos da elite se deve, fundamentalmente, ao maior nível socioeconômico das famílias. Como aqui a desigualdade entre famílias está entre as maiores do mundo, a desigualdade no desempenho educacional de pessoas de diferentes estratos socioeconômicos é enorme. O mesmo ocorre entre alunos de escolas públicas e privadas (levando à percepção equivocada de que as escolas privadas são muito melhores), mas fundamentalmente por causa da diferença entre os níveis socioeconômicos das famílias.

No Brasil, quando se trata de educação, de modo geral o dinheiro só compra mais trabalho para os membros da família.

O mesmo já havia sido observado a partir do Pisa-2015, levando Maria Rehder (Coordenadora de Projetos da Campanha Nacional pelo Direito à Educação) a afirmar que: “imaginar que a escola privada é muito melhor no Brasil é uma ilusão”.

Outro ponto que deve ser ressaltado é que, enquanto houve dedicação e investimento do Estado em uma política educacional de caráter público e conectada com as políticas sociais, tivemos avanços maiores no desempenho dos adolescentes mais pobres do que dos mais ricos, como mostrou Martin Carnoy e seus colaboradores, da Universidade Stanford, da Califórnia-EUA (aqui). Essa era mais uma das desigualdades que vinham sendo reduzidas, no Brasil.

A educação vai mal, no Brasil. Passou por um período de significativa evolução (principalmente no que diz respeito aos alunos de famílias mais pobres), que foi até o início da atual década. Essa evolução esteve longe de ser ideal, mas indicou um caminho que poderia ser seguido.

Hoje, vivemos um completo caos na educação. Alguns querem se aproveitar desse momento para privatizar a educação básica brasileira (como ressaltei neste comentário). Pelo péssimo desempenho relativo de nossas escolas privadas, fica claro que esse seria um enorme erro!

 

P.S.: Esses dados sobre a péssima qualidade das escolas privadas, no Brasil, servem para que nós compreendamos a existência, hoje, de figuras da elite com baixíssimo nível intelectual, como é o caso dos ministros Sérgio Moro e Abraham Weintraub. Como o nível intelectual depende, fundamentalmente, de investimentos adicionais da família (o caso do capital social intrafamiliar é particularmente relevante), não basta ter tido acesso a boas escolas privadas, é preciso dedicação dos pais ou outros membros mais velhos da família. Talvez, em ambos os casos, isso tenha faltado aos dois.

 

Jorge Alexandre Neves é Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

2 respostas para “Ensino privado no Brasil: um completo caos”

  1. Tuani disse:

    Falta concluir esse parágrafo: “Talvez valha a pena essas famílias se perguntarem: afinal, estamos pagando uma fortuna em troca de” ????????

    Deve ter ocorrido algum problema na publicação

    • Ricardo Paoletti disse:

      Tuani – sim houve o corte de duas palavras no paragrafo durante a edição. Obrigado pela observação, texto revisado. O parágrafo, então, deve ser lido assim:

      “Essas escolas, assim, empurram boa parte do problema do aprendizado acadêmico para as famílias, que, por sua vez, têm que se desdobrar e fazer enormes investimentos adicionais de todas as formas de capital a elas disponíveis: humano (o conhecimento acadêmico redundante da formação educacional prévia dos membros mais velhos da família), social (tempo de dedicação desses membros mais velhos à criança ou ao adolescente que traz as atividades acadêmicas para casa), cultural (a bagagem de cultura não escolar desses mesmos membros) e financeiro (gastos adicionais com aulas particulares, por exemplo). Ao mesmo tempo, na sua esmagadora maioria, essas escolas não oferecem, por exemplo, laboratórios de ciências para aulas práticas. Como se pode gostar de ciência e aprender ciência sem experimentação? Talvez valha a pena essas famílias se perguntarem: afinal, estamos pagando uma fortuna em troca de que?”

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