5 de agosto de 2019| , ,

Por uma frente ampla em defesa dos interesses do País

É hora de pacificar o País e construir soluções de interesse da maioria e não estimular esse comportamento insano de desconstrução/destruição das conquistas econômicas, sociais e culturais do Brasil.

por Antônio Augusto de Queiroz*

As forças políticas que defendem o interesse coletivo, a solidariedade, os direitos humanos e o meio ambiente, as relações de trabalho civilizadas e o respeito às liberdades, precisam urgentemente ampliar suas relações para os setores moderados, rompendo o isolamento em que se encontram na atual conjuntura brasileira.

 

Queiroz: “frentes amplas em defesa dos interesses do País e do povo, sob pena de enorme retrocesso civilizatório”.

O processo de discussão e votação da reforma da Previdência deixou evidente que sem o concurso das forças de centro, que se apropriaram de algumas das bandeiras dos partidos de oposição no âmbito do Parlamento, teria sido praticamente impossível retirar aspectos perversos da reforma, como o caso da capitalização, do BPC, dos trabalhadores rurais, do aumento automático da idade mínima, entre outros.

Nesse contexto, os partidos políticos, os movimentos sociais e culturais, que se articulam no campo da esquerda e centro-esquerda, precisam urgentemente romper a bolha, abrir mão da obsessão de hegemonismo e ampliar relações com os setores de centro, formando frentes amplas em defesa dos interesses do País e do povo, sob pena de enorme retrocesso civilizatório.

Só com a união de forças — e está provado que a oposição progressista é insuficiente para dar conta sozinha dessa tarefa — e por intermédio de frentes amplas, com uma pauta de pacificação, calcada no pluralismo ideológico tão essencial às democracias, será possível formar maioria e reagir a essa política nefasta, que caminha a passos largos, na destruição do que ainda resta de soberania e do bem-estar social no Brasil.

Estamos diante de um ambiente político caótico, marcado pelo fundamentalismo, pela fúria persecutória e pela completa ausência de racionalidade, em que tudo se justifica em nome da guerra cultural e ideológica estabelecida. Numa situação dessas, não faz sentido as forças de esquerda escolherem quem lutará do seu lado contra a insensatez e o desmonte do País. Ou o progressismo brasileiro amplia suas alianças e reúne condições de resistir ou marcará posição e colocará em risco importantes conquistas históricas.

 

“Os fundamentos da República estão sendo desrespeitados à luz do dia”.

Os fundamentos da República (cidadania, dignidade da pessoa humana, valor social do trabalho, etc), de que trata o artigo 1º da Constituição Federal, assim como seus objetivos fundamentais (construir uma sociedade livre, justa e solidária, erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir desigualdades sociais e regionais, garantir o desenvolvimento nacional, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação), a que se referem o artigo 3º da Constituição, estão sendo desrespeitados à luz do dia, sem qualquer reação, e até mesmo sob o aplauso de certos setores da sociedade que lucram com a barbárie.

Em nome de uma cruzada moralista justiceira, de um suposto acerto de contas com o passado, que utiliza o combate à corrupção como elemento mobilizador, está em curso um movimento de desmonte dos serviços públicos, dos bancos públicos, do parque produtivo e das empresas de engenharia e de construção nacional, incluindo as principais estatais brasileiras, desde sempre responsáveis pelo investimento e a geração de emprego e renda, sem que haja reação enfática da sociedade.

Onde estão os inteligentes e notáveis homens públicos, juristas, políticos, autoridades eclesiásticas, líderes de classe, militares, entre outros, que não se articulam para evitar esse desmonte e esse retrocesso civilizatório? Alguém, pessoa ou instituição, com credibilidade, precisa tomar a iniciativa de resgate da lucidez no País. Já nos alertava Ulysses Guimarães: “República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam”.

Para orientar essa articulação, entretanto, é necessário um programa mínimo, que, de um lado, reconheça a necessidade de reformas, considerando que o Sistema Político se encontra exaurido e sem condições de responder adequadamente às demandas da sociedade, e, de outro, que preserve os vulneráveis de maiores sacrifícios.

 

“A divisão dos brasileiros só reforça esse ambiente baseado em vaidades, ressentimentos, julgamentos morais e manipulações de emoções, reações e comportamentos os mais primitivos do ser humano”.

Nessa perspectiva, é urgente e indispensável a elaboração de uma plataforma ampla, de interesse coletivo, que preserve o patrimônio e a soberania nacional, defenda a probidade como valor fundamental, reconheça a economia de mercado, e a necessidade de reformas e ajustes no papel do Estado, porém cuidando para que haja calibragem e transição na implementação dessa agenda, de tal modo que os eventuais sacrifícios dela decorrentes sejam distribuídos de forma justa e equânime, devendo ser proporcionais à capacidade econômica e condição social dos contribuintes e usuários ou beneficiários dos serviços públicos, não elegendo como variável de ajuste apenas e exclusivamente os mais pobres, aqueles que dependem da prestação do Estado, ou daqueles cuja renda tem natureza alimentar.

A divisão dos brasileiros, a desorientação reinante, a ausência de um projeto de País, só reforça esse ambiente baseado em vaidades, ressentimentos, julgamentos morais e manipulações de emoções, reações e comportamentos os mais primitivos do ser humano. É hora de pacificar o País e construir soluções de interesse da maioria e não estimular esse comportamento insano de desconstrução/destruição das conquistas econômicas, sociais e culturais do Brasil. A forma de estancar isso é reunindo as instituições e pessoas de bom senso em torno de um programa, que reflita, de fato, as demandas e aspirações do povo brasileiro.

 

(*) Jornalista, analista e consultor político, diretor de Documentação licenciado do Diap, e sócio das empresas Queiroz Assessoria em Relações Institucionais e Governamentais e Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas.

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