O Dia Internacional da Mulher não nasceu como celebração. Nasceu da luta por direitos trabalhistas, igualdade salarial e condições dignas de trabalho. É uma data que nos obriga a olhar para estruturas históricas que ainda organizam o mundo do trabalho.
Na educação brasileira, essas estruturas são evidentes.
Segundo dados do Censo Escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), cerca de 80% dos docentes da educação básica no país são mulheres. Na educação infantil, esse percentual ultrapassa 90%. No ensino fundamental, gira em torno de 80%. No ensino médio, permanece majoritário.
No ensino superior, o cenário muda parcialmente, mas não o suficiente para se falar em equilíbrio. As mulheres representam aproximadamente 46% do corpo docente nas instituições de ensino superior, segundo o próprio Inep. No entanto, ao observar a distribuição por áreas e cargos de maior prestígio acadêmico, como titularidade e posições de gestão, a desigualdade reaparece.
A feminização do magistério tem raízes históricas. Desde o século XIX, ensinar foi uma das poucas profissões consideradas socialmente adequadas às mulheres. Essa entrada massiva no magistério abriu portas, mas também ajudou a consolidar um processo de desvalorização simbólica e salarial. Durante décadas, difundiu-se a ideia de que ensinar seria uma extensão do cuidado doméstico, quase uma vocação natural, e não um trabalho especializado.
Essa concepção ainda produz efeitos.
O Brasil registra, persistentemente, desigualdade salarial entre homens e mulheres. Dados recentes do IBGE mostram que as mulheres recebem, em média, cerca de 20% menos que os homens no mercado de trabalho formal. Na educação, embora existam planos de carreira e pisos salariais que reduzem parte dessa diferença, a desigualdade se expressa na progressão profissional, no acesso a cargos de direção e nas oportunidades acadêmicas.
É impossível falar da condição das mulheres no trabalho sem enfrentar também a violência que atravessa a sociedade brasileira.
O país ainda convive com índices alarmantes de agressões e feminicídios, dentro e fora de casa, fato que mancha com sangue a sociedade brasileira. Muitas professoras enfrentam situações de violência doméstica, assédio moral ou sexual e insegurança cotidiana. Combater a violência contra a mulher não é apenas uma pauta social ampla. É uma condição básica para que milhares de profissionais possam exercer sua atividade com dignidade e segurança.
Além disso, a sobrecarga é uma realidade concreta. A maioria das professoras acumula a jornada escolar com responsabilidades domésticas e familiares. O trabalho pedagógico não termina quando a aula acaba. Ele continua no planejamento, na correção de atividades, na preparação de relatórios, muitas vezes à noite e nos fins de semana.
Quando falamos em valorização docente, estamos falando também de enfrentamento às desigualdades de gênero. Defender melhores salários, turmas com número adequado de alunos, respeito à jornada e condições dignas de trabalho é, ao mesmo tempo, defender justiça para uma categoria majoritariamente feminina.
As mulheres não apenas sustentam a escola. Elas também estão na linha de frente da organização coletiva. Participam das assembleias, das negociações, das mobilizações e da construção de direitos que beneficiam toda a categoria.
O 8 de março nos lembra que igualdade não é uma abstração. É uma construção histórica que exige políticas públicas, compromisso institucional e transformação cultural.
A educação brasileira tem rosto de mulher, na educação infantil, na básica, no ensino técnico e no ensino superior. Reconhecer isso significa ir além da homenagem. Significa enfrentar as desigualdades que ainda persistem e transformar reconhecimento simbólico em valorização concreta.
Valorizar a educação é, necessariamente, valorizar as mulheres que a constroem diariamente.
Por Ailton Fernandes, presidente da Fepesp