5 de dezembro de 2019

Dieese: Síntese de Indicadores

Algumas considerações sobre os resultados do PIB no 3º trimestre de 20191

Alguns comentários sobre o PIB brasileiro no 3º trimestre de 2019

• No 3º trimestre de 2019, o PIB avançou 0,6% em relação ao 2º trimestre do ano, já com o ajuste sazonal. É o 11º trimestre consecutivo de alta. Se continuar nesse ritmo, a economia brasileira retornará aos patamares anteriores a 2015 só a partir de 2022;

• No valor acumulado em quatro trimestres, ou seja, anualizado, o PIB registra avanço de 1,0%, pouco abaixo do observado no trimestre anualizado anterior, de 1,1%, conforme pode ser visto na Tabela 1.

• Na comparação entre 2018 e 2019, o cenário é de uma economia em semiestagnação. Apesar de alguma melhora nos investimentos e no consumo das famílias, o recuo de gastos do governo e as variações negativas da indústria de transformação indicam que esse baixo dinamismo deve continuar.

• O resultado do terceiro trimestre se deve a uma leve reação de setores como a agropecuária e o comércio, somados a uma leve melhora dos investimentos e do consumo das famílias, além da estabilização de segmentos como a construção e a indústria de transformação em patamares muito ruins. Portanto, não houve elemento “único” puxando a economia, mas sim pequenas contribuições de vários elementos. Os indícios são de que este é um processo ainda débil de recuperação;
1 Fontes de informação utilizadas: Sistema de Contas Trimestrais – IBGE, CNI, BCB (Índice de Commodities, IBC-Br), STN, SIDRA-IBGE (LSPA, PMC, PIM-PF, PMS), ME (Exportações por tipo e valor).

• As projeções apontam crescimento próximo de 2,0% para 2020, maior que o patamar de 1,0% esperado para este ano. No entanto, é preciso considerar que a economia do país, desde 2017, entrou em estágio de baixo crescimento e, exceto por algum episódio pontual, tende a se manter em “marcha lenta”, com pouca melhora do mercado de trabalho e da produção. Na verdade, um crescimento nessa baixa intensidade torna inviável qualquer restabelecimento do mercado de trabalho e dos salários a partir do emprego assalariado formal, como ocorrido entre 2005 a 2013, período com grande dinamismo no mercado interno;

• A agropecuária, no acumulado de quatro trimestres (um ano) avançou 2,0%, depois de algum arrefecimento no final de 2017 e 2018. Houve expansão do total da área plantada e da produção das principais culturas. Cereais, algodão, milho, laranja, banana e batata têm apresentado avanço, conforme dados observados até outubro de 2019 (Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE). Os indicadores de preços das commodities agrícolas também têm tido comportamento favorável, especialmente após 2017, o que contribui para a elevação do valor da produção. Apesar de avanços pontuais, como é o caso do aumento das exportações de carne para a China e para outros países, em razão da gripe suína, o cenário externo é instável. Além disso, é preciso considerar o impacto negativo da elevação do preço da carne para o mercado interno em relação à qualidade de alimentação das famílias.

• A indústria, por sua vez, apresentou, no 3º trimestre de 2019, considerando oacumulado nos 12 últimos meses, queda de 0,5% na indústria de transformação e de 0,9% na indústria extrativa, ainda que esta última tenha reagido entre julho e setembro. Observando os principais indicadores, o setor apresenta recuperação de faturamento real com a estratégia de redução de custos, já que a massa real de salários, horas trabalhadas e nível de emprego está em queda. A utilização da capacidade instalada encontra-se estagnada, reagindo somente no último período, mas como resposta a uma redução do nível de estoques e não como elevação mais sustentável da produção industrial. Com a redução das taxas de juros, alguns segmentos de duráveis tiveram melhora na produção, especialmente automóveis e atividades ligadas ao complexo metalmecânico, mas há dificuldade em uma retomada sustentável no setor, devido ao fraco desempenho da economia. O setor de construção tem tido avanços no segmento habitacional para o mercado de classe média/alta e no Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) nas faixas acima de R$ 2.660,00 (dois mil e seiscentos reais), este último muito dependente de crédito, do mercado de trabalho e da política de juros, que pode sofrer impacto com a desvalorização do real. O baixo nível de investimento público, por sua vez, prejudica o segmento de infraestrutura, o que limita a expansão mais robusta do setor. Parece que o setor deixou o “fundo do poço”, mas a escalada é árdua para atingir os patamares pré-2015;

• No setor de extração mineral, o indicador cresceu no 3º trimestre, principalmente em função da retomada da produção da Vale, após o crime ambiental de Brumadinho. Também contribui para o resultado o aumento da produção de petróleo e gás da Petrobras, com a operação de novas plataformas e a redução de paradas programadas. Entretanto, no período mais longo de 12 meses, a taxa é negativa.

• O comércio avançou no 3º trimestre de 2019 tanto em relação ao 2º trimestre do ano (1,1%) como no acumulado de 12 meses (1,4%). Por segmento, os avanços foram observados em vendas de veículos e motocicletas e de materiais de construção, ambos com resultados acima dos verificados em 2018. O segmento de Hipermercados e Supermercados tem tido elevação mais discreta, mas o fato de o desempenho ser positivo auxilia o resultado do setor como um todo. A queda dos juros e os saques do FGTS tiveram efeito benéfico, entretanto, por serem ocorrências pontuais, podem não conseguir elevar o patamar de vendas, que se encontra abaixo dos níveis de 2014. Há um forte componente relacionado a crédito e juros nessa expansão. A “Black Friday” pode ter algum impacto no quarto trimestre, mas não garante melhora perene do segmento para 2020;

• O setor de serviços teve um terceiro trimestre instável. Os destaques positivos foram: atividades imobiliárias (2,7% no acumulado em 12 meses) e informação e comunicação (3,4% no acumulado de 12 meses), além das outras atividades de serviços (1,5%). Porém, há instabilidade no setor, se observado o trimestre à luz da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS-IBGE). As atividades de Transportes e Serviços profissionais, administrativos e complementares, mais vinculados à indústria, acumulam, no ano, resultados abaixo da média do setor, ainda que, em setembro, o último tenha avançado. O terceiro trimestre mostra também os Serviços prestados às famílias (mais dependente de renda) em trajetória de desaceleração, mesmo que ainda, no computo do ano, esteja acima da média do setor. Atividades financeiras e de seguros e Administração Pública, permanecem com resultados ruins no PIB do 3º trimestre de 2019, com 0,0% e -0,1% de queda no acumulado de 12 meses, respectivamente;

• Os Serviços Industriais de Utilidade Pública, por sua vez, foram as atividades que apresentaram maior crescimento no acumulado em 12 meses, no 3º trimestre de 2019, de 3,4%. Como são atividades econômicas com menor volatilidade em relação aos ciclos econômicos e também bens essenciais, esse desempenho é mais um indicativo da baixa intensidade de recuperação econômica;

• Pelo lado da demanda, o setor público poderia atenuar esse fraco desempenho com medidas anticíclicas, mas a opção foi outra. Os gastos públicos registram taxas negativas – a variação acumulada em 12 meses no 3º trimestre de 2019 foi de -0,8%. O segmento externo, encontra-se retraído, resultado de problemas no Mercosul (que afeta as vendas industriais) e da instabilidade da economia mundial;

Os investimentos apresentam ainda variação positiva de 3,0%, no acumulado de 12 meses, refletindo a melhora da construção civil no segmento habitacional, ainda que sem uma retomada das obras de infraestrutura, que poderia dar maior sustentabilidade. Além disso, o destaque desse resultado é o efeito contábil da internalização de plataformas da Petrobras, que contabilmente elevou a taxa de investimento. Os investimentos apresentaram avanço em 2019, após resultados muito ruins de 2016 a 2018 (o “fundo do poço”), mas com o tamanho da queda, a velocidade da melhora tem sido aquém da necessária para a recuperação das perdas, refletindo a incerteza sobre a perenidade e os resultados práticos dessa reação. Da mesma forma que os outros segmentos da demanda, os investimentos ainda se encontram abaixo dos níveis de 2014. Até agora, excetuando-se o habitacional, os investimentos têm se movido mais por “necessidade” do que por planejamento de expansão robusta da demanda;

O consumo das famílias permanece com variação positiva, mais discreta que os investimentos, mas ainda acima do PIB, acumulando ritmo de 1,7% em 12 meses. Este componente tem se movido às custas muito mais de fatores pontuais, como a redução do custo do crédito e a liberação do FGTS, do que uma expansão sustentável baseada na expansão da renda, uma vez que os insuficientes postos de trabalho gerados são informais, o que gera instabilidade no fluxo de renda e impacto no consumo.

• Indicadores da fraca atividade econômica: o Inflação: A demanda fraca contribui para a permanência da inflação abaixo da meta, inclusive com tendências de deflação, se retirado o núcleo de preços administrados e/ou controlados. Por outro lado, há pressões inflacionárias que afetam negativamente as condições de vida das famílias: a alta nos alimentos, especialmente nas carnes; as resultantes da política de preços da Petrobras; e de reajustes de planos de saúde e energia elétrica. o Mercado de trabalho volátil e se expandindo por meio do emprego informal e outras formas precárias, como trabalho em tempo parcial, temporário, intermitente, terceirizado, entre outros, possibilitados pela reforma trabalhista, contribuindo para lenta recuperação do consumo interno a partir da renda. Se a recuperação dificilmente virá pelo consumo, restaria o investimento como motor da retomada, mas, como visto acima, este ainda não tem sido consistente; o Arrecadação fiscal: o terceiro trimestre de 2019 mostra melhora da arrecadação, consequência do aumento na arrecadação do imposto de renda (principalmente de recolhimentos na fonte), de receitas de exploração de recursos naturais e de dividendos e participações, assim como redução das despesas primárias, especialmente com a queda nos investimentos relacionados ao PAC e nas compensações do Tesouro para a previdência relacionadas às políticas de desonerações. Um aspecto positivo é que a diminuição dos juros tem promovido
considerável redução sobre os gastos com juros nominais da dívida, embora resultados primário e nominal dessa conta sejam ainda deficitários em 2019 (R$ 63,8 bi e R$ 305,7 bi, respectivamente). Em síntese, a situação fiscal reflete tanto a baixa intensidade da atividade econômica (que afeta negativamente a arrecadação) como a dependência grande das receitas extraordinárias, como as de concessões e privatizações (que, um dia, se esgotarão). Esse não é um cenário que aponte para a sustentabilidade fiscal. Como a base de arrecadação é dependente da atividade econômica, se esta permanecer fraca, a opção por uma nova rodada de ajuste fiscal, como já se tornou prática, pode ter efeito contrário – deprimir a economia, derrubando ainda mais a arrecadação; o Vai se consolidando um cenário, para 2020, de crescimento vagaroso, em meio à incerteza sobre os rumos da política econômica: o “novo normal” da economia brasileira é crescer a taxas mais discretas, insuficientes para sustentar a expansão do emprego assalariado formal. No ritmo projetado, o mercado de trabalho continuará sofrendo, com aumento do trabalho desprotegido, altas taxas de subocupação e desemprego e maior concentração da renda. O setor externo, que poderia ser um “desafogo”, não parece indicar retomada mais robusta a ponto de compensar a baixa intensidade da demanda interna.

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