Fepesp - Federação dos Professores do Estado de São Paulo, 19 de junho de 2024

Por Beth Gaspar em 20 de junho de 2020

Para além da queda do bobo da corte

Por Adércia Bezerra Hostin dos Santos *

 

“E daí?”, diria o rei nu, aquele da gripezinha, o que minimiza as mortes pela pandemia, o que não é coveiro, aquele que de fato jamais gestou o país com responsabilidade social, nem antes e muito menos durante o que estamos vivendo atualmente, com mais 1 milhão de infectados e cerca de 50 mil mortos pela covid-19.

O presidente Jair Bolsonaro manteve-se atento ao fio do seu primeiro pronunciamento em rede nacional, mostrando sempre a indiferença e o desdém diante da gravidade do que o mundo está vivenciando, e exibindo uma sordidez vaidosa e operante, numa fala às vezes mais mansa, ou desconectada, ou ruidosa, mas não menos perversa.

 

Adércia, mmm
Adércia: mesmo com saída de Weintraub, Educação não pode respirar aliviada

É como se os meses passassem, mas a situação estivesse nitidamente congelada, impedindo qualquer avanço no sentido de modificar o “status” nacional de país vira-lata e inconsequente. Ao contrário do controle e da responsabilidade esperados perante as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de outros órgãos competentes, o Brasil segue adotando equivocadamente ações e medidas similares aos EUA, que padecem de desgoverno semelhante.

Parece inimaginável, embora também simbólico, que estejamos entrando no terceiro mês de alerta máximo no que diz respeito a uma crise sanitária de nível mundial e que, no Brasil, a política econômica ultraliberal e o negacionismo científico sejam as forças que conduzem as ações do governo federal.

Vemos uma sociedade refém de um processo antidemocrático que induz os trabalhadores — e não só eles, mas todos os cidadãos — a repensar e, muitas vezes, pactuar com o slogan do “mercado”, isto é, que seria de alguma forma melhor morrer de covid-19 do que morrer desempregado. O fato persistente é que hoje temos políticas que simplesmente desmantelaram em grande parte as relações de trabalho, com o apelo fortíssimo da pandemia sendo usado como pano de fundo de uma ordem que já estava dada por esse governo anteriormente ao estado de emergência sanitária: a ordem da privatização total dos serviços públicos e do desmonte das relações de trabalho e dos direitos trabalhistas.

Na condução das políticas públicas e sociais, uma sucessão de desastres. Temos um Ministério da Saúde sem ministro, tutelado por alguém que não é da área. A pasta da Cultura, que contou com a aspirante à secretária Regina Duarte, hoje protagoniza um show de horrores.

No meio de prisões e acertos de bastidores regados a suco de laranja que envolvem escândalos ligando diretamente a família de Jair Bolsonaro, anuncia-se a nomeação do ator Mário Frias, nascido nas tramas da novelinha juvenil “Malhação”, para uma pasta tão prioritária quanto saúde e educação, haja vista a relevância do nosso patrimônio histórico e da arte como fonte de vida, de luta, de sonhos e de poesias, sem as quais que ninguém vive. O novo secretário não será menos descartável que sua antecessora — e lá se vão grandes projetos que continuarão estagnados.

Por sua vez, na educação, resta-nos hoje esperar o que de pior pode vir para a condução do MEC.

Com o ex-ministro Abraham Weintraub tentando desesperadamente, como o típico olavista que é, “fugir” do país, o império desmorona, mas sua herança é cruel. Afinal, o ex-ministro metido a valentão, que no fundo não passa de um ignorante prepotente e desqualificado, não desenvolveu qualquer política educacional consciente e consistente para o país. Ao invés disso, todas as suas ações à frente do MEC foram para desmantelar a educação pública e regimentar um leque de desigualdades que só ampliaram o abismo social e prestaram um desserviço à sociedade brasileira.

Como se não bastassem todas as declarações coronelistas de que as políticas de acesso eram só para a elite branca — como, por exemplo, sua postura em relação ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) —, o último ato de Weintraub, para encerrar sua passagem pelo ministério, na manhã do último dia 18, foi revogar a portaria sobre políticas de inclusão na pós-graduação, que incluíam acesso de negros, indígenas e pessoas com deficiência.

Seria interessante, mesmo dentro desse contexto, alinhar e minimamente lembrar que é contraproducente comemorar. A pergunta que não quer calar é: para onde caminha a educação?

A educação deveria estar respirando aliviada, mas o que se espera, na verdade, é saber que rumos o país vai tomar quanto à política geral, porque o fato é que nenhuma pasta neste desgoverno tem autonomia para absolutamente nada. Observamos, por vezes apáticos, a máquina governamental se inchar de militares à frente de pastas, órgãos e setores importantes para a condução do país, ao mesmo tempo em que não há linha de ação com autonomia para nenhuma construção de um debate mais amplo e democrático por dentro deste governo. No âmbito educacional, os principais autores deste cenário simplesmente são descartados: estudantes, pais, professores, trabalhadores da educação, sociedade civil.

De maneira impiedosa, não se dá voz aos que devem falar e defender realmente o fortalecimento da educação.

Estamos a um passo de um abismo social e educacional, com políticas voltadas cada vez mais para a privatização, a militarização e o amordaçamento do magistério. Há de se levar em consideração, contudo, o alerta de Friedrich Nietzche de que, quando olhamos muito tempo para um abismo, o abismo olha para nós. Sendo assim, vamos compreender que não podemos aceitar exclusivamente contemplar o vazio a ponto de que o abismo nos olhe de volta e nos torne tão vazios quanto ele. Como diria o aniversariante de 19 de junho, o grande Chico Buarque, “amanha há de ser outro dia… Inda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria”.

 

*Adércia Bezerra Hostin dos Santos é pedagoga, presidente do Sindicato dos Professores de Itajaí e Região/SC, diretora da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee 

charge: blog da Denise, Correio Braziliense de 16/06/20

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