Os povos originários da América Latina, assim como os povos africanos escravizados, foram submetidos a um longo processo histórico de exploração, negação de existência e extermínio desde o final do século XV, período em que se consolida o imperialismo europeu. A ocupação violenta de territórios, a apropriação sistemática de riquezas naturais e a destruição de culturas inteiras não foram episódios isolados, mas elementos estruturantes da formação do sistema capitalista moderno.
Nesse processo histórico, povos e recursos foram convertidos em instrumentos de uma lógica que subordina a vida humana ao acúmulo de capitais. O ser humano passa a ocupar um lugar secundário dentro de uma engrenagem econômica orientada pela expansão e concentração de riqueza, frequentemente à custa da soberania dos povos e da dignidade social.
Da matriz europeia ao imperialismo norte-americano
Essa cultura imperial europeia serviu de referência direta para os Estados Unidos, que, já no final do século XIX, passaram a afirmar sua própria vertente imperialista. A expansão territorial além de suas fronteiras, tanto no extremo norte do continente americano quanto no Pacífico e no mar do Caribe, bem como a anexação de vastas áreas originalmente mexicanas por meio de guerras, expressam essa lógica de dominação.
A isso se soma o extermínio sistemático dos povos originários durante a chamada “conquista do Oeste”, processo frequentemente romantizado por parte da historiografia tradicional, mas que teve como base a violência, o deslocamento forçado e a negação de direitos.
Após a Segunda Guerra Mundial, em um contexto de reorganização geopolítica global e de crescente disputa por matrizes energéticas, especialmente os combustíveis fósseis, os Estados Unidos assumiram o papel autodeclarado de árbitros da ordem internacional. Intervenções militares diretas e indiretas passaram a ser justificadas por argumentos que, em diversos casos, jamais se sustentaram nos fatos históricos.
O episódio do Iraque permanece como referência incontornável. A invasão foi legitimada pela alegação da existência de armas químicas que nunca foram encontradas, mas cujas consequências recaíram sobre a população civil, os trabalhadores e a soberania do país.
Venezuela e a repetição de um roteiro conhecido
É nesse mesmo registro que se insere a atual ofensiva contra a Venezuela. Sob o discurso do combate ao narcotráfico, o presidente do país é capturado e submetido a um tribunal cuja isenção desperta questionamentos legítimos. Não se trata de coincidência que a Venezuela esteja entre os países com maiores reservas de petróleo do mundo, assim como ocorria com o Iraque no início dos anos 2000.
É amplamente reconhecido que Nicolás Maduro não conseguiu comprovar de forma inequívoca a lisura de sua eleição. Ainda assim, não cabe a potências estrangeiras definir o destino político de um país soberano. A permanência ou a substituição de qualquer dirigente deve ser uma decisão exclusiva do povo venezuelano, e não o resultado de tribunais seletivos ou de interesses econômicos travestidos de moralidade política.
O posicionamento da Fepesp
A Federação dos Professores do Estado de São Paulo se posiciona de forma clara e inequívoca contra qualquer prática de caráter imperialista, seja por meio de intervenções diretas, sanções econômicas ou imposições indiretas de agendas políticas.
A história demonstra que essas ações raramente produzem estabilidade, democracia ou melhoria concreta das condições de vida. Ao contrário, tendem a aprofundar desigualdades, comprometer direitos sociais e penalizar os trabalhadores, que acabam arcando com o custo mais alto de disputas geopolíticas sobre as quais não exercem controle.
Para o Brasil e para a América Latina, insistir em leituras simplificadas da realidade internacional representa um risco adicional. Abandonar princípios como soberania nacional, autodeterminação dos povos e solução pacífica de conflitos enfraquece a capacidade da região de construir respostas próprias aos seus desafios históricos e contemporâneos.
Mais do que aderir a narrativas prontas ou alinhamentos automáticos, é fundamental compreender os interesses em jogo, preservar espaços de diálogo e fortalecer a cooperação regional.
Pensar criticamente é parte do papel social da educação
O debate sobre a Venezuela exige maturidade histórica e responsabilidade política. Reduzi-lo a slogans, julgamentos morais ou polarizações superficiais empobrece a análise e dificulta a construção de caminhos que respeitem os direitos sociais e a dignidade dos povos envolvidos.
Como educadores e representantes dos trabalhadores da educação, entendemos que pensar criticamente o mundo é parte essencial do nosso papel social. Defender a soberania, rejeitar o imperialismo e valorizar o diálogo não constitui uma posição circunstancial, mas uma lição reiterada pela própria história.
Ailton Fernandes
Professor de História e presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp)