19 de setembro de 2017
 
 
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FLIP: PONTO DE ENCONTRO PARA PROFESSORES?

01/08/2017

As constantes ameaças à formação educacional, como tem se mostrado o projeto de Reforma do Ensino Médio (MP 746/2016), e a crescente transformação da educação em negócio por conglomerados financistas apenas elevam a importância de um evento como a Flip, que tem como objetivo debater a leitura e reunir em um mesmo espaço autores e leitores
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Por Milena Buarque, enviada especial a Paraty

O maior festival literário do Brasil, que ocorre todos os anos na histórica cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, é uma oportunidade única para reunir professores, estudantes e jornalistas em torno de uma programação que sempre tem como figura central um grande nome da literatura nacional. Neste ano, em sua 15ª edição, a Flip trouxe para a Igreja Matriz, cujas obras iniciais remontam ao século XVII, o sarcástico cronista e romancista carioca Lima Barreto (1881-1922). O evento aconteceu de 26 a 30 de julho.

Em 14 anos, a Flip já homenageou poetas, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond, ensaístas, como Gilberto Freyre, e teatrólogos, como Nelson Rodrigues e Millôr Fernandes. Só para ficar em alguns exemplos. No entanto, esta edição, com curadoria assinada pela jornalista e historiadora Joselia Aguiar, teve o mérito de dessacralizar o evento: nunca antes o festival contou com tantas mulheres (equidade no número de palestrantes) e escritores negros e negras (30% da programação).

A maior diversidade, é claro, foi refletida no público. No terceiro dia do evento (28), a professora Diva Guimarães, de 77 anos, materializou os números que saíam na imprensa. Formada em educação física, neta de escravos, Diva falou sobre racismo e a importância do estudo. “Sou uma sobrevivente pela educação”, afirmou.

Procurando preservar, perpetuar, difundir e valorizar a língua portuguesa e a literatura brasileira, a Flip tem se firmado como um valioso espaço de troca de ideias para professores e educadores, além de, em algumas edições, dialogar com estudantes que estejam se preparando para os principais vestibulares do país, que trazem em suas listas de obras para leitura diversos autores brasileiros.

O público infantojuvenil, por sua vez, é contemplado na programação da Flipinha e da Flipzona, que incentiva a leitura e a produção cultural por meio de novas mídias.

A 15ª edição da Flip, com tantas quebras na tradição do evento, calhou de ser a minha primeira. A imersão literária e cultural é inesgotável e insaciável. Entretanto, talvez por algumas altas expectativas, esperava um pouco mais da presença do autor homenageado na programação principal – que, apesar de trazer para o debate outras temáticas e autores contemporâneos, em alguns momentos se distanciavam no tangenciamento do escritor.

Destaco aqui uma boa mesa: a “Moderno antes dos modernistas”, que debateu aspectos da literatura de Lima que evidenciam como o autor já se encontrava à frente de seu tempo. O professor Antonio Arnoni Prado, profundo conhecedor da obra do escritor carioca, iniciou seus estudos por influência do grande crítico literário Antonio Candido, morto neste ano.

Como jornalista, me surpreendi com a programação paralela que aconteciam nos vários espaços culturais e casas da cidade. Editoras trouxeram importantes nomes do cenário literário e acadêmico ao evento.

Ainda que o número de leitores no Brasil tenha subido seis pontos percentuais entre 2011 e 2015, de acordo com a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura (Instituto Pró-Livro), a leitura é hábito apenas para 56% da população do país. E ser hábito é ter lido pelo menos um livro em três meses. Dados como este somados às constantes ameaças à formação educacional, como tem se mostrado o projeto de Reforma do Ensino Médio (MP 746/2016), e à crescente transformação da educação em negócio por conglomerados financistas apenas elevam a importância de um evento que tem como objetivo debater a leitura e reunir em um mesmo espaço especialistas e interessados pelo assunto.

Ou seja, um bom ponto de encontro para professores e educadores.

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