17 de novembro de 2017
 
 
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A língua nossa de cada dia

20/05/2016

por Milena Buarque

O idioma que falamos tem data de celebração no calendário brasileiro: dia 21 de maio é o Dia da Língua Nacional. Nossa língua nacional, o português, é um dos elementos de afirmação social de nossa cultura e enquanto nação.

O português é o idioma adotado e falado em outros sete países, além do Brasil e Portugal (Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Timor Leste e Cabo Verde). O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, resultado de estudos da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa, passou a vigorar de forma definitiva neste ano no Brasil, depois de um longo período de adaptação após sua assinatura, em 1990, e da entrada em vigor temporário no país e em Portugal, em 2009.

No Timor Leste, o acordo foi adotado após sua independência, em 2004. Angola e Moçambique ainda devem ratificar o documento. Mas, mesmo em Portugal, a adoção do novo acordo não é ponto pacífico. Intelectuais e grupos de acadêmicos ainda resistem à mudança de grafia de suas palavras. No início de maio, por exemplo, o juiz Rui Teixeira, do Tribunal de Torres Vedras, distrito de Lisboa, determinou que as ações apresentadas em sua corte mantivessem a grafia pré-acordo. “Esse acordo apenas afeta o Governo e não os tribunais”, proclamou o juiz, mantendo aberto o debate.

Em 2006, um movimento espontâneo formado por intelectuais instituiu o 21 de maio também como marco do nascimento do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O museu, no entanto, existe agora apenas no nome. Um incêndio em dezembro de 2015 destruiu suas instalações e sua reabertura está condicionada à reconstrução do predio histórico onde estava instalado, junto à antiga estação ferroviária da Luz, na capital.
 

O PORTUGUÊS BRASILEIRO

Segundo o professor de língua portuguesa e literatura do Colégio Objetivo Jorge G. de Oliveira Junior, mestre em antropologia social pela USP, o idioma falado é um elemento de identidade. “Na própria expressão ‘idioma oficial’ já está o aspecto funcional de sua determinação: o idioma faz parte do pacote dos elementos constitutivos da noção de ‘pátria’ ou ‘nação’, bem como a bandeira, o hino e os costumes elencados como ‘diferenciantes’, como o carnaval, o futebol e a cachaça.”

O português abrasileirado recebeu a influência e a contribuição de diversas outras línguas - do tupi, falado pela maioria das nações indígenas que aqui viviam antes da chegada dos colonizadores, ao idioma ioruba dos povos africanos jejes e nagôs, trazidos para o Brasil como escravos. Como uma verdadeira esponja, a língua também absorveu o francês, falado pelas elites intelectuais no século XIX, o italiano, trazido pelos imigrantes que se estabeleceram nas regiões Sudeste e Sul do país, o inglês, sentido diariamente na dinâmica da fala e da escrita, e até os dialetos virtuais, que extrapolam a linguagem digital da internet.

Em um contexto de intensa globalização, o monolinguismo representa um problema concreto. A opinião é do antropólogo Daniel De Lucca, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP). "Durante a Copa do Mundo de 2014, por exemplo, os brasileiros passaram a se preocupar em aprender outras línguas. Hoje, o metrô de São Paulo até fala inglês. Mas o inglês, como sonho de um mundo monolíngue e anglofonizado, também é outro problema. Nesse sentido, o português e o espanhol jogam um papel pesado, como línguas latinas, que tensionam com a hegemonia do inglês", diz.

O controle político, comercial e o conceito de hegemonia estão presentes na ideia de um idioma comum. “Nos países africanos, a maioria tornados independentes nos anos 70 do século 20, a adoção da língua do colonizador foi também uma estratégia para manter certa unidade nacional em meio à riquíssima variação cultural e linguística africana”, aponta Oliveira Junior.

 

Noel Rosa, à esquerda: o que se pronuncia com voz macia já é brasileiro.
Para o parnasiano Olavo Bilac, o português era inculto e belo

A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

A língua está sempre evoluindo e se modificando. É um fenômeno multifacetado. O português originou-se do latim, idioma que o Império Romano difundiu por todo o continente europeu por volta do século 3 a.C, que, por sua vez, havia sido influenciado pelo grego, modelo de civilização para os romanos.

Com a disseminação do poderio do império, a língua foi se afastando de seu centro e sofrendo novas modificações locais e regionais. A língua caminha: atravessa fatores geográficos e momentos históricos. Para o poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918), a língua portuguesa era tida como “inculta e bela”: ainda que derivada do latim vulgar, tinha sua formosidade.

Os paradoxos envolvendo as noções de norma culta e linguagem informal permanecem até os dias atuais. Como um sistema de representação, constituído por palavras e por regras que as combinam em frases, a língua se configura como meio de comunicação e expressão de um povo, de uma comunidade específica e também de um grupo de pessoas em particular. Assim, é possível contrapor a ideia de Bilac com uma pergunta: existe apenas um português?

Na opinião do professor Oliveira Junior, a língua, como elemento da identidade nacional, carrega contradições: é nela que fazemos nossa poesia e as canções que definem nossa sensibilidade brasileira, mas é pelo seu uso formal que somos enquadrados pelas escolas, instituições públicas e tribunais.

O professor vê certa marginalização dos sujeitos que “arejam” o idioma. “Oficialmente, são os estudiosos da língua e as academias de letras que definem a chamada ‘norma’, suas regras, seu léxico e estrutura. Mas extra-oficialmente são os falantes - todos nós - que, sem consultar nenhuma autoridade, livremente criam novas palavras e construções gramaticais. Os grupos que, muitas vezes, são os responsáveis por trazer esses novos sentidos são os marginalizados. Isso aconteceu com a riquíssima contribuição dos escravos e ex-escravos, com os imigrantes italianos pobres e, hoje, com os jovens de periferia e da comunidade LGBT.”

Com o tempo, algumas dessas transformações podem vir a se tornar uma palavra ou construção aceita em larga escala pela maioria das pessoas e serem, enfim, dicionarizadas, ou podem ficar circunscritas a certo grupo de falantes de uma determinada época.
 

NOEL ROSA: VOZ MACIA

A força renovadora da língua já foi lembrada pelo poeta Noel Rosa (1910-1937). Na canção “Não Tem Tradução”, o compositor afirma que tudo aquilo que se pronuncia com ‘voz macia’ é ‘brasileiro, já passou de português’.

A língua, dessa forma, é aquela que se faz nas ruas, completa-se no cotidiano da fala. Expressão de identidade, não existe língua sem povo. É por meio das idiossincrasias e particularidades do idioma que esse mesmo povo diz como compreende o mundo e afirma seu próprio mundo. "São os usuários que dão vida à língua. Sem eles, ela morre. Como os usos sempre mudam, a língua também sempre está em transformação. O que a gramática e a ortografia querem fixar, os falantes torcem, modificam", diz De Lucca.

O dia 21 de maio comemora, sobretudo, o diálogo e a valorização da diversidade cultural. “Toda efeméride é vazia se não vier acompanhada de uma reflexão. O brasileiro diversas vezes desvaloriza o português. Assim, se comemoramos a riqueza das variantes de nossa língua, estaremos em um bom caminho, mas, se com ‘Dia da Língua Nacional’ nos referimos apenas à norma padrão, a comemoração me parece inócua e desnecessária”, afirma Oliveira Junior.

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