22 de setembro de 2018
 
 
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8 de março e o assédio

08/03/2018

“O assédio é como
se fosse uma faca
na vida da mulher”

Para a socióloga Conceição Fornasari, diretora do
Sinpro Campinas, o assédio é como uma faca na vida
de uma mulher. Se ela dá um passo à frente
ou tenta se mexer, há o corte. E não deve ser assim.

“Indo além das definições jurídicas, o assédio, para mim, é tudo aquilo que constrange, limita a mulher e a impede de ser ela mesma. O assédio é aquilo que a coloca à margem da história. É o que lhe dá medo de trabalhar, de engravidar e de andar na rua. É como se fosse uma faca”, diz a professora, que é mestre em história pela PUC-SP.

Conceição, infelizmente, acumula uma lista de situações de assédio que sofreu ou presenciou ao longo de décadas de docência. Hoje, tenta trabalhar a questão de gênero de diferentes maneiras para as disciplinas que leciona na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e na PUC-Campinas.

Aqui, ela relata cinco cenas que podem ajudar professoras, auxiliares e técnicas de ensino a identificar e denunciar situações de assédio. “Existem dois tipos de assédio: o vertical, que pode vir de quem ocupa um cargo superior ao seu na hierarquia, e o horizontal, cometido entre colegas. O nosso riso é o de sempre confundir delicadeza com assédio”, ressalta.
 

1) Nossa, você está grávida outra vez? Não para de ter filho?: “pesquisas apontam que as mulheres mais assediadas são as que estão em idade fértil. Muitas, na primeira opotunidade, quando passa o período da estabilidade, são demitida. Uma das coisas mais aviltantes é esse tipo de assédio que leva a mulher a ter dúvidas sobre a maternidade. Porque, se ela opta por ter filho, ela sofre uma série de abusos, na forma de críticas ou ‘piadas’ veladas”, diz Conceição.

 

 

2) Que vestido bonito! Você tem pernas grossas!: “muitas situações são descaradas. Um dia fala que o vestido é bonito. No outro, já comenta do corpo. Já presenciei situações assim de professor com aluna. No caso, o coordenador não deu atenção porque alegou que o professor em questão já sairia da escola por uma outra razão”.

Para a professora, uma dos pontos mais problemáticos do assédio é o fato de que a denúncia será feita, na grande maioria dos casos, para um homem, que ocupa espaços como os da diretoria e da coordenação, dotados de simbolismo se pensados à luz de uma categoria que é essencialmente feminina, no caso da educação básica. “O problema que a maior parte dos chefes não são mulheres são homens. Então, quando a professora, a aluna ou a auxiliar decide denunciar, ela tem de falar com um chefe, que, como sabemos, não entende a gravidade ou diminui a questão”, explica.
 

3) Nossa, com que homem você vai se encontrar depois da aula?: “a mulher vive num constante dilema entre se vestir bem para si mesma ou se invisibilizar por meio das roupas. As perguntas ‘onde que você vai? Seu marido a viu sair assim hoje?’ são frequentes no cotidiano de uma mulher. Eu, por exemplo, era a única mulher a dar aua no curso de engenharia. Lembro até da roupa que vestia quando ouvi uma vez o ‘nossa, com que homem você vai se encontrar depois da aula?’. Eu só dava aula para homens, só convivia com homens. Era nojento e desgastante”.
 

4) Na sala de professores, interrupção constante: “numa reunião, dados apontam que uma mulher pode chegar a ser interrompida em sua fala quase 80% mais do que os homens. O artifício da interrupção é muito utilizado em espaços políticos, sindicais e acadêmicos. Uma professora querendo expor uma ideia e um homem se apropriando de sua fala, tornando-a uma sugestão masculina, é uma cena lamentavelmente comum”, conta Conceição.

 

 

5) Até que enfim foi promovida, hein! Quais favores você fez para o chefe?: “nessas horas, eu logo desmascaro o sujeito em público, no mesmo espaço em que a tal da ‘brincadeira’ foi feita. Ele deve ser desmoralizado e colocado em seu devido lugar. Respondo: você, por acaso, conhece meus méritos? Pode falar aqui sobre o meu currículo? Vamos!”

 

 

Para se defender de situações de violências morais e abusivas, é importante que professoras, auxiliares e técnicas de ensino não se silenciem. Se a situação persistir e nada for feito, a primeira orientação é buscar apoio jurídico e do sindicato. Evitar falar a sós com o agressor e estar sempre acompanhada de colegas e de representantes sindicais são algumas das atitudes que você deve tomar.

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