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Opoinião: 'À mercê de meliantes'

11/06/2018

Opinião:

'À mercê de meliantes'

Esquerda organizada morreu;
direita nada de braçada

 

Por Claudio Weber Abramo (*)

Uma peculiaridade do grau de despolitização brasileiro é a timidez de quem se considera de esquerda em declará-lo. Fascistas e protofascistas sentem-se à vontade para usar o termo "esquerdista" como epíteto acusatório. Isso se deve, é claro, à derrocada do Partido dos Trabalhadores --que, ironicamente, nunca foi de esquerda, mas da centro-esquerda católica.

Os partidos que seriam de esquerda são uma piada: o Partido Comunista do Brasil (PC do B) transformou-se em mamífero dos cofres públicos na área de esportes; o Partido Socialista Brasileiro (PSB) é em boa parte composto por insalubre contingente de ruralistas.

Em passagem digna de pastelão, há alguns anos o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, candidatou-se a cargo executivo pelo PSB —o qual, como resultado, deveria passar a se denominar Partido Social-Capitalista.

Sobram micropartidos (PSOL, PSTU, PCO) com doutrinas às vezes bizarras e que, obedientes à sina da esquerda, digladiam-se entre si.

Estamos imersos numa atmosfera em que a esquerda organizada morreu e a direita nada de braçada, impulsionada por instituições armadas, evangélicos, sonegadores de impostos, militares antidemocráticos, executivos de nível ginasial aspirantes a CEO e mais um montão de jovens boçalizados pela ignorância e pela falta de perspectivas de vida.

A direita reivindica intervenção militar, pena de morte, execuções sumárias, prisão perpétua para menores delinquentes, Estado mínimo num lugar em que o poder público é todo privatizado por interesses empresariais, criminosos ou ambos.

Quando não propaga, cala-se sobre o preconceito antipobre, antimulher, antigay, sobre a xenofobia, o racismo e o antissemitismo; força o fechamento de mostras de artes plásticas e por aí vai. Nada existe nessa gente que a redima.

Até o liberalismo que propõe é um embuste. Não se trata do liberalismo herdeiro do iluminismo, mas a subjugação de todos à exploração escravista do capitalismo selvagem.

É verdade que a extinção da esquerda organizada e a ascensão da extrema direita pululam ao redor do mundo. A esquerda sumiu faz tempo mesmo num país como a Itália, em que todo mundo sabe de cor as letras de "Bandiera rossa" e de "Bella ciao" (não a paródia indecente que anda por aí, mas o canto dos partigiani antifascistas).

O desaparecimento da esquerda partidária não significa a extinção das pessoas de esquerda. Muitas parecem acuadas pela agressividade dos fascistas, algo que também afeta os liberais de verdade. Isso faz muito mal, pois transmite a impressão de que a cantilena fascista seria predominante na sociedade.

Confunde-se a descrença (justificada) nas instituições da democracia representativa com saudades do totalitarismo.

Tomando as eleições deste ano, a direita rapidamente se organiza em torno de uma candidatura presidencial, enquanto os antifascistas parecem relutar —quando deveriam unir-se em torno de uma única candidatura viável, que se comprometa com certas plataformas políticas (outro assunto, para outra ocasião).

A despolitização sempre tem como corolário o predomínio da direita. Para quem pensa que a extrema direita brasileira trará algum benefício à vida pública, saibam que o resultado serão recuos ainda maiores dos que já se verificam na salvaguarda dos direitos humanos e o agravamento da obscena disparidade de renda do país.

Beneficiados serão os bancos, os financistas, os ruralistas, as grandes fortunas, as oligarquias, que oprimem não apenas os pobres, mas todos vocês que, sem saber o porquê, brandem bandeirinhas do Brasil enquanto seguem meliantes ideológicos

(*) Claudio Weber Abramo é ex- diretor da ONG Transparência Brasil  e co-fundados do site Dados.org.

 

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