19 de setembro de 2017
 
 
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Como abordar gênero em sala de aula?

08/03/2017
*Nicolás Lepratti é jornalista da Federação dos Professores do Estado de S.Paulo.

Em pesquisa divulgada hoje (08/03) pelo Instituto Datafolha, foi indicado que mais de 500 mulheres são vítimas de agressão física a cada hora no Brasil. A pesquisa, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma organização sem fins lucrativos que debate questões de segurança pública no país, mostra que 29% das mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de violência física ou verbal (o que equivale a 16 milhões), além de que 40% das entrevistadas já sofreram algum tipo de assédio, porcentagem que equivale a 23,3 milhões de mulheres no país.
 

Em nossas salas de aula na Educação Básica, as mulheres têm presença predominante. No dia da mulher, dia de luta, nada mais justo do que enfatizar a busca pela igualdade. As mulheres vivenciam opressões diariamente, onde são desvalorizadas no mercado de trabalho, além de vítimas de relacionamentos abusivos e feminicídios.
 
É uma questão histórica, a cultural patriarcal e machista nos molda há séculos. Uma das diversas maneiras de se combater o preconceito é trazer o debate da questão de gênero para dentro da sala de aula.
 
Conversamos com duas professoras feministas, onde cada uma, da sua maneira, pontua ações necessárias para trazer à tona a igualdade de gêneros na sala de aula. 
 


(Professora Andrea Harada)

Para a professora Andrea Harada, diretora do Sinpro Guarulhos, o debate sobre gênero na sala de aula deve ser de forma tranquila e clara: ”Atualmente o debate em torno das questões de gênero estão ocupando diferentes espaços na sociedade e a escola, por integrar a sociedade, também está sentindo a necessidade de tratar do tema, sobretudo aquelas que visam uma formação mais humanista e laica. Em geral, as escolas abordam o tema em projetos interdisciplinares para que diferentes abordagens possam surgir. Além disso, é possível que o tema seja também trabalhado em disciplinas de atualidades”.
 
Já segundo a professora da Pontifícia Universidade Católica Anna Feldmann, que ministra aulas sobre questões de gênero, a temática deve ser exposta pelo docentes, mas com o auxílio dos livros acadêmicos: “De ambos. Precisamos dos livros e de muita pesquisa empírica para embasar nosso conhecimento e conquistar credibilidade argumentativa, mas para entender as injustiças sociais basta olhar ao redor e realizar a mínima leitura da realidade para averiguar que não aceitamos o outro e deslegitimar se a diversidade. A liberdade de cátedra é ainda um ápice democrático difícil de ser alcançado no Brasil. O pluralismo de ideias e estado laico devem ser a base da liberdade acadêmica”. 

Hoje, muitas professoras vêm tentando trabalhar a história em uma perspectiva mais igualitária e menos focada na figura masculina. Em contraponto, há movimentos conservadores, como o ‘Escola sem Partido’, por exemplo, que tentam impossibilitar o debate na sala de aula:  “A lei da mordaça, também conhecida como projeto ‘Escola sem Partido’, pretende restringir a atuação e autonomia dos docentes diante de certos conteúdos. Isso representa grave retrocesso, contra o qual toda a comunidade escolar e acadêmica deve se manifestar no sentido de impedir a aprovação de tal projeto”, enfatizou Andrea Harada.
 
Outro fato que potencializou o debate na sala de aula foi o surgimento de coletivos feministas. O portal ‘Mapa de Coletivo de Mulheres - MAMU’ tem mais de 290 grupos cadastrados, em todo o Brasil. Para a professora Anna Feldmann, esse movimento é crucial para fomentar a discussão: “Os coletivos possuem a vantagem de não serem vinculados à grade curricular, por isso, colaboram no fato de promover o debate de maneira espontânea e voluntária entre alunos e alunas. Mas tanto a existência do coletivo como o debate via docência devem caminhar juntos. O primeiro por viabilizar a auto-organização dos estudantes e garantir a práxis social, já o segundo, por discutir as questões de gênero dentro de uma perspectiva de formação humanista que a instituição de ensino deve priorizar, influenciando assim o debate público e as transformações almejadas pela sociedade.”
 
Apesar dos número alarmantes apontados pela pesquisa Datafolha, as professoras Anna e Andrea acreditam que houve uma melhora comparada a anos anteriores: “Sim, bastante. Hoje estamos com leis e contamos com monitoramento de ações muito mais eficazes. Pesquisas analisam os índices de feminicídio, abordamos questões tabus, protestamos contra assédio no carnaval, mas não é o suficiente. Há uma consciência social em crescimento sobre o feminismo, mas é necessário mais mulheres no poder para mudar o cenário social e político”, concluiu a docente Anna Feldmann.
 
Longe de ser apenas um dia de comemorações, o 8 de março é um momento de luta e de autoafirmação. A educação faz parte é um pilar essencial para conseguirmos igualar gêneros e fornecer as mesmas oportunidades a todas.
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