17 de junho de 2019

A realidade distorcida na Educação: viagem imaginária a Guiné Bissau

Guiné-Bissau, país estudado por Paulo Freire, aparece em vídeo divulgado até pela Fundação Lemann como exemplo cívico e educacional. Será?

por Fernando Cássio

No final da semana passada assisti a um vídeo compartilhado no Instagram da Fundação Lemann. Nele fala Marcelo da Silva, “professor, escritor e palestrante” (LinkedIn) que também é docente do Instituto Federal Catarinense (Balneário Camboriú). Marcelo é professor de Geografia e tem um canal no YouTube com pouco mais de 40 mil inscritos. Além de edutuber, Marcelo é conhecido por compor divertidas paródias voltadas ao ensino da Geografia. No vídeo, o professor relata a viagem que fez a Guiné-Bissau, onde passou uma semana ministrando aulas e palestras para professores e estudantes em universidades e escolas. A certo ponto do vídeo, editado por ele mesmo ou por seus apoiadores, o professor diz o seguinte (transcrição minha):

Cássio: “Ativismo barato de frases de efeito: colonial, colonizado, patrocinado pela filantropia empresarial e transmitido no YouTube.”.

“Algumas coisas me chamaram muito a atenção no continente africano. Primeiro, a civilidade daquela população. Nas escolas, muita emoção. Apesar de nenhuma estrutura, os alunos estavam ali, dia a dia, perguntando, questionando a cada aula que eu ministrava. Eu cheguei para falar um pouco sobre a gestão da sala de aula e como funciona a aprendizagem, e percebi, em cada uma das escolas que eu ia, mesmo com uma única pedra de giz e uma parede pintada de verde, [que] eles procuravam fazer a diferença e mostrar que é através da educação que eles podem transformar o seu país”.

Para entender por que o professor ficou tão surpreso com a “civilidade daquela população”, fui ver um segundo vídeo dele sobre a viagem, postado em seu canal do YouTube. Neste vídeo, um pouco mais longo, ele comenta as “Dez lições que aprendi em Guiné-Bissau”. O recado é para aqueles que lhe advertiam de maneira preconceituosa, quando de sua ida ao país africano, sobre as doenças, a violência, a miséria daquela nação.

Após a jornada de uma semana no país, o professor concluiu exultante que não é certo pré-julgar um povo. Ele mostra isso à sua audiência com alguns exemplos de lições aprendidas na Guiné-Bissau. Primeiro cita que não é porque se é pobre que não se pode prezar por um ambiente limpo e organizado. Em seguida mostra uma mulher varrendo o que parece ser uma calçada com uma vassoura improvisada. Marcelo relata que os motoristas de Bissau (a capital da Guiné-Bissau) são muito respeitosos no trânsito. Fica implícito que ele esperava que a cidade fosse um caos. Segundo o professor, não se pede esmolas nas ruas de Bissau e nem há assaltos por lá. Ele conta que nunca houve um assalto a caixa eletrônico em Guiné-Bissau, e que os carros-fortes circulam com seguranças desarmados. Embora muitos digam que a violência guarda estreita relação com a miséria e a má distribuição de riquezas nas sociedades, a experiência de uma semana vivida por Marcelo na Guiné-Bissau serviu como um grande contraexemplo.

Ao descobrir que todos têm casa própria na Guiné-Bissau, Marcelo tece uma crítica à especulação imobiliária gananciosa de alhures. Na Guiné-Bissau, acredita o viajante, a dignidade da moradia é garantida (embora, talvez, sem acesso a rede elétrica, água encanada e coleta de esgoto). Diante do desemprego, relata, os membros da família que estão empregados ajudam os que não estão trabalhando. Lições de solidariedade em Guiné-Bissau. Na educação, Marcelo se espanta com a vontade dos estudantes. Embora as escolas sejam precárias, os alunos se empenham, perguntam, questionam e são “altamente disciplinados”. Indisciplina escolar, segundo o professor-viajante, é ato isolado. O aluno vê na educação, palavras dele, “a possibilidade de emergir socialmente”. O orgulho pátrio dos guineenses, que cantam seu hino nacional com “amor e respeito”, tocou o coração do Professor Marcelo. Muitas lições aprendidas na Guiné-Bissau. A maior delas é que aquilo que chamamos “povo evoluído” muitas vezes não tem a ver com renda ou com IDH.

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Ao saber pelo professor Marcelo que não há assaltos a banco em Guiné-Bissau, me senti compelido a procurar algumas notícias sobre o país, onde nunca pisei mas sobre o qual sempre tive grande curiosidade. Como era de se esperar, são muitas as notícias de crimes contra o patrimônio na Guiné-Bissau, provavelmente na mesma proporção de qualquer outro país com nível de vida semelhante. A população do país é de cerca de 1,85 milhões de habitantes (2017), pouco maior que a população do estado de Rondônia, um dos menos populosos do Brasil. É óbvio, portanto, que em números absolutos há menos assaltos a banco na Guiné-Bissau do que no Brasil. Há muito menos gente lá, e, por conseguinte, há muito menos bancos e assaltantes de bancos.

Encontrei notícias não apenas sobre assalto a banco (poucos, é verdade), mas também sobre roubo de gado a mão armada na fronteira com o Senegal, roubo de cabo elétrico, tráfico de pessoas, sequestros e – fato recente, março de 2019 – uma grande apreensão de cocaína (789 kg) no país. Em fevereiro deste ano, registrou-se o roubo de uma câmara de conservação de cadáveres do necrotério do Hospital Simão Mendes, maior unidade hospitalar de Guiné-Bissau. Isso pode ser facilmente lido em jornais portugueses, mas também em “O Democrata”, publicação online de Bissau. Outra notícia reporta que 3 mil guineenses com insuficiência renal fazem hemodiálise em hospitais portugueses devido à falta de equipamentos hospitalares no país.

 

Sobre a ausência de pedintes nas ruas da Guiné-Bissau, uma notícia de agosto de 2017 (publicada em diversas mídias) reporta que o primeiro-ministro do país autorizou o ministro do interior a prender e mandar quaisquer crianças ou adolescentes mendicantes para ‘as ilhas’. Tratam-se das ilhas do arquipélago dos Bijagós, sobre o qual abundam denúncias de tráfico de crianças para os países vizinhos Senegal e Guiné-Conacri. Não entendi se há uma prisão instalada ali ou se é uma espécie de degredo. De toda forma, a ausência de mendigos nas ruas soou ao professor Marcelo como uma mostra de dignidade do povo, um escrúpulo residual daqueles que preferem o estudo e a labuta à humilhação da mendicidade.

As notícias recentes sobre a educação na Guiné-Bissau relatam uma onda de greves docentes e protestos estudantis desde outubro de 2018. Na última manifestação, em 27 de maio de 2019, estudantes seguravam cartazes e entoavam canções com o slogan ‘queremos ir à escola’. Pipocam denúncias de detenções arbitrárias e uma brutal repressão estatal aos protestos estudantis. Um representante dos estudantes contou ao jornal local que “Os atuais dirigentes querem nos silenciar! Criaram milícias nos movimentos estudantis, portanto decidimos que a próxima marcha será realizada a frente do ministério do Interior de forma a facilitar que nos batam”.

As escolas públicas do país têm funcionado de maneira intermitente desde o ano passado, devido a sucessivas greves de professores. O motivo? Atraso no pagamento de salários e o não cumprimento de acordos para a melhoria da carreira docente por parte do governo. Em alguns protestos, estudantes ‘imploram’ por escolas. Noutros, queimam carros. Apanham da polícia em todos os casos.

Algumas matérias dão a entender que os estudantes protestam contra o governo e contra os sindicatos docentes que mantêm o professorado em greve. Em outras, o protesto parece ser solidário aos professores, e, portanto, mais focalizado no Ministério das Finanças que não paga os salários. Como no Brasil, não é o Ministério da Educação que paga os salários dos professores guineenses. Até aqui, todas as tentativas de acordo fracassaram. Algumas reportagens mencionam um empréstimo do Banco Mundial que regularizaria a situação do pagamento aos professores. O salário mínimo do país, aumentado há algum tempo para 50.000 francos CFA, equivale a R$ 333,00.

O atual impasse na educação guineense, como mostram várias reportagens deste mês, é sobre a anulação do ano escolar anterior em todo o país por conta das greves, que têm paralisado as aulas nas escolas públicas às terças, quartas e quintas-feiras. Tendo apenas dois dias de aula na semana, há quem defenda o cancelamento do ano letivo em todas as escolas devido à impossibilidade de repor o conteúdo perdido. Também há quem defenda a anulação só em algumas unidades, pois há escolas públicas no interior do país que funcionam no chamado ‘regime de autonomia’: escolas públicas que as famílias pagam como se fossem particulares. A ‘boa vontade’, aqui, vem na forma de pagamento em dinheiro. Ante a turbulência das greves, tais escolas ‘funcionam’ com financiamento privado, embora não necessariamente de forma não precária. Talvez sejam essas as escolas visitadas pelo professor Marcelo. Escolas em que a vontade de estudar e o “desejo de emergir socialmente” produzem tudo, inclusive os salários de professores com a ajuda financeira das famílias.

A conjuntura política da Guiné-Bissau é complexa, e mesmo depois de ler uma centena de notícias – ou de passar uma semana visitando espaços educacionais que são, provavelmente, os mais funcionais e menos precários – é muito difícil perceber os problemas do país e arriscar um diagnóstico, por exemplo, sobre os problemas da sua educação pública.

Os dados educacionais da Guiné-Bissau, país que teve 36 ministros da educação nos últimos 40 anos, simplesmente não corroboram a alegada redenção das mazelas sociais pela boa vontade do povo, ainda que tal diagnóstico seja feito na melhor das intenções. Ver, por exemplo, o trabalho comparativo de Rheder, Silva e Monteiro, publicado no final de 2018 na prestigiada “Educação & Sociedade” (http://www.scielo.br/…/…/v39n145/1678-4626-es-39-145-962.pdf). Há muitos outros trabalhos brasileiros e estrangeiros – teses, artigos e livros – sobre a educação guineense, além de compêndios de dados do Unicef e do indefectível ‘salvador’ de pátrias do Sul Global, o Banco Mundial.

Esses longos parágrafos surgiram da minha vontade de entender o contexto por trás do vídeo de dois minutos que me chocou. Dei, no fim, com a história de um professor que efetivamente se preocupa com a educação e com a capacidade desta de transformar as pessoas. A partir do que diz publicamente, ele é mais um que, tendo a oportunidade de estudar, dedica-se a lutar contra as injustiças do mundo. Ao mesmo tempo, acredita na fábula individualista do esforço pessoal. Se isso bastasse, não haveria tanta gente excluída do sistema educacional e tanta gente lutando por escolas, na Guiné-Bissau e em outras partes do mundo.

A visão do estrangeiro que se encanta com a bondade e a ética de um povo, essencializadas como atributos ‘naturais’, pode ser tão colonial quanto colonizada. Aqui ela parece ser colonial e colonizada ao mesmo tempo. A colonização europeia mundo afora é uma tragédia humanitária sem precedentes, especialmente nos lugares em que ela perdurou oficialmente até tão tarde. Respeito o trabalho, a experiência vivida e as lições aprendidas pelo professor Marcelo, e por isso é que não me atrevo a analisar o conteúdo de suas aulas e palestras, apenas duas de suas falas públicas.

Seu assombro esperançoso com a “civilidade” do continente africano é ao mesmo tempo constrangedor e revoltante. Pobres, porém honrados, limpinhos, patrióticos e confiantes no futuro. Quem sabe sejam diferentes do gentio de um certo país que, embora mais “evoluído”, vive para exceder o limite de velocidade, jogar lixo no chão, desrespeitar o professor, não prestar atenção na aula, não ser solidário com os parentes desempregados, especular com imóveis, pedir esmola no farol e assaltar bancos. Seriam também canibais, como afirmou um ministro da educação brasileiro de outrora? Uma ova!

Do lado de cá da ingenuidade, professores guineenses sem salário fazem greve há meses e estudantes desesperados por escolas são violentamente reprimidos pelo Estado nas ruas de Bissau. Se alguns cantam o hino nacional com “amor e respeito” nas escolas, talvez outros o façam cheios de revolta interior.

“Civilidade” não é ter autodisciplina para aprender em uma sala de aula sem infraestrutura onde um visitante estrangeiro com ar professoral fala sobre “gestão da sala de aula”, “o significado da aprendizagem” ou sobre “atualidades geográficas”; “com muita diversão, com muita música”. É se dispor a enfrentar a violência policial para arrancar do Estado escolas decentes que tenham mais do que “uma única pedra de giz e uma parede pintada de verde”. É sair na rua com o desejo de exigir a educação pública como direito, para que a sua própria geração não seja excluída do sistema educacional como foram as anteriores.

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Paulo Freire tem diversos escritos sobre as suas experiências em Guiné-Bissau, alguns publicados no conhecido “Cartas a Guiné-Bissau” ainda na década de 1970. Na carta n. 6, enviada por Freire à equipe de trabalho em Bissau (primavera de 1976), o educador afirmava que:

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Paulo Freire: “O fato, porém, de haver estado várias vezes num bairro ou de caminhar diariamente numa rua nem sempre é suficiente para que tenhamos da rua ou do bairro uma visão realmente crítica.”

“A esta altura talvez se pudesse dizer por que visitar este ou aquele bairro, como ponto de partida do trabalho de alfabetização, se vivo em Bissau, se tenho estado nesses bairros por várias vezes? O fato, porém, de haver estado várias vezes num bairro ou de caminhar diariamente numa rua nem sempre é suficiente para que tenhamos da rua ou do bairro uma visão realmente crítica. Visão que começamos a ter na medida em que, mais do que simplesmente visitar o bairro ou andar quase automaticamente pela rua, olhando e escutando apenas, tomamos o bairro ou a rua como ‘pre-ocupação’, procurando vê-los e neles ouvir sua população – comunicar-nos com ela. Processo em que, mais do que especialistas ‘frios e distantes’, que fazem da área e de seus habitantes objetos de sua análise, somos militantes em busca de conhecer a realidade da área com os que nela habitam.

Nestas visitas, os mais mínimos pormenores em torno da realidade devem ir sendo anotados – o estado em que se encontram as ruas do bairro e que tinha que ver, por exemplo, com a saúde coletiva; a existência ou não de pontos de encontro, em que as pessoas conversam; a maneira como as crianças brincam ou não nas ruas; um sem-número, afinal, de dados que se revelam a nós quando não apenas andamos pelas ruas, mas nos pomos curiosos diante delas”.

Sem isso, resta apenas a experiência de uma viagem interessante e um ativismo barato de frases de efeito. Colonial, colonizado, patrocinado pela filantropia empresarial e transmitido no YouTube.

As expressões entre aspas duplas, exceto nas citações a Freire e a títulos de publicações, são transcrições de falas do professor Marcelo nos dois vídeos. Link para o segundo vídeo, “Dez lições que aprendi em Guiné-Bissau” (Prof. Marcelo, Geografia Irada):
https://www.youtube.com/watch?v=RflW7hMAq64

 

Fernando Cássio, professor da UFABC, é organizador do livro ‘Educação contra a barbárie – por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar”, recentemente lançado pela editora Boitempo.

Uma resposta para “A realidade distorcida na Educação: viagem imaginária a Guiné Bissau”

  1. Avelino Vaz disse:

    Olá professor Fernando Cássio, parabéns pela análise aqui trazida. De fato são muitas, as pessoas de fora do continente que visitam o continente africano altamente impregnadas de seus preconceitos e resíduos coloniais. O professor Marcela é mais, não é um caso particular.
    Amei as suas críticas.

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