3 de abril de 2020

Aulas gravadas, ao vivo, ou sem aulas? Dilemas em tempos de coronavírus

Em meio ao isolamento social, ensino à distância na educação básica vira realidade da noite para o dia e gera dúvidas

por Laura Mattos

 

Aulas ao vivo ou gravadas? Quanto tempo de aula e quais matérias? A partir de que idade? Os alunos podem ou não fazer perguntas? Mais ou menos lições? Provas?

O ensino à distância na educação básica virou realidade da noite para o dia em meio à quarentena imposta pelo coronavírus, e são inúmeras as dúvidas que circulam por grupos de WhatsApp de pais e mães, professores, coordenadores e gestores escolares.

Laura Mattos: privilégios na rede privada, sem aulas nem merenda na pública

Em tempos de isolamento social, divido aqui minha experiência pessoal para refletir sobre a forma como a rede particular de ensino está lidando com esta crise. Tenho dois filhos, o caçula está no 6º ano do fundamental e o mais velho, no 1º do médio.

O mais novo estuda em uma escola de bairro, que tem pouco mais de 40 anos, em torno de 500 alunos. O mais velho, em um colégio tradicional centenário com mais de 3.000 estudantes.

Logo na primeira semana, a escola do caçula já estava com uma grade de aulas ao vivo, no mesmo horário das presenciais, entre 7:20 e 12:45.

Nas salas do Google Classroom, os alunos aparecem em janelinhas, todos podem se ver, e o professor abre o microfone para que façam perguntas ou comentários.

Claro que não foi fácil, que falavam todos ao mesmo tempo, a internet caía, mas, como o passar dos dias, foram se acertando. O encontro com os amigos e os professores, ao vivo, trouxe conforto para o meu filho, que, como todos, está angustiado com tudo isso.

O fato de ter um horário para acordar, para estar nas aulas, fez com que se sentisse mais seguro, mais feliz, e isso ajudou na rotina da família.

Ao final da primeira semana, ele começou a ficar cansado, ter dor de cabeça, e demos esse retorno à escola, assim como outros pais.

Nesta segunda semana, a grade foi ajustada para um horário menor, das 8h ao meio-dia, com intervalos maiores entre as aulas. E, além de passar o conteúdo pedagógico, os professores têm conversado bastante com eles sobre a situação. A experiência, neste cenário tão amedrontador, não poderia ser melhor.

Já a escola do mais velho teve outra resposta. A opção foi colocar conteúdo, em texto, na plataforma digital, com tutoriais e professores disponíveis em alguns horários para tirar dúvida.

Agora na segunda semana, teve início um teste para aulas ao vivo, primeiro apenas 15 minutos, nesta quarta-feira chegou a três aulas de meia hora cada uma.

Nesse modelo por enquanto mais solto, o meu filho está com dificuldades para estabelecer uma rotina e ainda não conseguiu ter muita proximidade com os colegas da sala e com os professores.

O lado bom é que a escola se demonstra aberta para ouvir as famílias e se aprimorar. Também se mostra positivo o fato de que, embora ainda escassas, as aulas ministradas ao vivo são também gravadas e ficam disponíveis no sistema, para quem não pôde acompanhar no horário ou queira rever o conteúdo.

Os modelos adotados pelas escolas são os mais variados. Uns optam pelas aulas on-line no mesmo sistema das presenciais, outros flexibilizam a grade, e há também as videoaulas, que os alunos podem assistir a qualquer hora e enviar as dúvidas por e-mail ou mesmo por chats.

Também há divergência sobre a melhor idade a se começar, fundamental 1, 2, ensino médio ou até no infantil. Há quem diga que só os maiores devem se colocar diante do computador, outros estão maravilhados com encontros ao vivo entre crianças de apenas dois anos de idade.

Não há respostas definitivas, tudo é inédito, sem precedentes, e a experiência se constrói dia a dia, com erros e acertos.

O que pedagogos e psicólogos são unanimes em afirmar é a necessidade da rotina para dar conforto emocional em um mundo tão fora da ordem. E que, quanto mais próximo se estiver dos amigos e dos professores, melhor.

Que as famílias e as equipes educacionais possam juntas construir as soluções e que o espírito de comunidade escolar finalmente se sobreponha à relação de consumo que vigora entre os colégios e os pais que têm o privilégio de matricular os filhos na rede privada. Porque na pública, não há aulas ao vivo ou gravadas; as crianças estão de férias e sem merenda escolar.

 

Laura Mattos é jornalista e mestre pela USP, autora de ‘Herói Mutilado – Roque Santeiro e os Bastidores da Censura à TV na Ditadura’.

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